Nesse clássico, que, em 1930, projetou Marlene Dietrich ao estrelato hollywoodiano, o tradicional professor (fascinado talvez pela calcinha preta - o obscuro - que a dançarina arruma entre as cintas-liga, na penumbra do cabaré "O Anjo Azul") abandona seu mundo pequeno-burguês, iluminado pelas janelas aprazíveis da sala de aula, e casa-se com ela, a dançarina do cabaré. Entretanto, permanece sendo chamado pomposamente de "Professor" e, no ritual de comemoração desse casamento, é levado pelas circunstâncias (criadas por um mágico que tira ovos do seu nariz) a imitar um ridículo galo.
Essa mimése do galo compõe-se de palavras que não levam a nada a não ser ao próprio levar... Na primeira vez que imita o galo, o professor é o galo da escola, o galo que cuida de seus pintinhos em classe, mas que precisa ir buscá-los fora da sala de aula, no cabaré “O anjo Azul”. Um silenciamento subjetivo no sujeito aí se instaura, quando o professor não pode dizer, falar, confessar nem para si mesmo que vai ao cabaré para outro motivo que não ser o galo em busca dos alunos fugitivos. Mas, quando se casa com Lola, ela, vestida de noiva, imita uma galinha. É o seu silenciamento diante da moral do matrimônio. Que bodas são estas senão as bodas de ovos? É como se a voz dramática por Lola Lola gritasse "Soy El Que Soy"... a mesma voz remetida pelo desenho desrespeitoso do professor apaixonado flutuando angelical, tocando uma harpa de onde saía o nome, infinitamente, Lola Lola... O personagem volta a imitar o galo quando, em total estado de desespero, vê-se transformado no palhaço do cabaré, cinco anos depois, o galo traído e abatido, o galo que cisca no terreiro alheio, o palhaço que vende os postais eróticos da esposa, tão serializados quanto o nome Lola Lola que estampava o desenho no quadro negro. A aliança que professor Rath veste está em seu pescoço, afinal. O matrimônio com o absurdo.
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O SILENCIAMENTO NO FILME “ O ANJO AZUL”
ResponderExcluirNo filme “ O Anjo Azul” é possível observar um processo gradativo de silenciamento do sujeito na figura do professor Immanuel Rath, que passa por uma transformação da posição de respeitável professor do início do século XX, à posição nula socialmente, representada de forma irônica pela caracterização de um galo.
Inicialmente, o ato de deixar o chapéu no cabaré, simboliza, metaforicamente, a perda do respeito e da posição de superioridade. Em vez do chapéu, Rath traz consigo a roupa íntima de Lola – atriz, mulher sensual e poderosa, contrária ao estereótipo feminino da época - derradeira personagem para o desenvolvimento do processo de silenciamento do sujeito professor.
Nas cenas em que Rath volta ao cabaré para tentar recuperar o seu chapéu, o professor só reforça os vínculos com o local e com tudo o que ele socialmente representa: vulgaridade, degradação, promiscuidade... Ao analisar a posição social do sujeito professor e o local freqüentado, percebe-se que há uma antagonia. Esse enfrentamento antagônico reafirma o processo de silenciamento de Rath, que perde o respeito de seus alunos, os quais o expõem ao ridículo perante a instituição que o pune com a expulsão.
A noite anterior é de redenção, em que o professor e a atriz se unem, confundem-se na cena da estátua nua, logo após a apresentação de Rath ao público. Desempregado, luta pelo não abandono da posição sujeito.
Do abandono, o início da nova vida. Casa-se com a musa, canta como futuro galo em um ritual matrimonial que soa como a preparação para o que ele viria a se tornar na derradeira humilhação: o palhaço que volta ao Blue Angel e deve cantar como um galo. Um galo que não tem poder, que obedece, que se submete perdendo definitivamente a posição, a razão, a sua voz.
Como um louco, corre atrás de Lola. Traído e como um ninguém, acaba por morrer na velha mesa de professor, a qual guardou por muitos anos no Ginasium, em busca da sua velha identidade.
O chapéu muda, mas a cabeça é a mesma: cartola, palhaço, mendigo.
Cristiane Pawlowski
Ricardo Cabral Penteado