Nesse clássico, que, em 1930, projetou Marlene Dietrich ao estrelato hollywoodiano, o tradicional professor (fascinado talvez pela calcinha preta - o obscuro - que a dançarina arruma entre as cintas-liga, na penumbra do cabaré "O Anjo Azul") abandona seu mundo pequeno-burguês, iluminado pelas janelas aprazíveis da sala de aula, e casa-se com ela, a dançarina do cabaré. Entretanto, permanece sendo chamado pomposamente de "Professor" e, no ritual de comemoração desse casamento, é levado pelas circunstâncias (criadas por um mágico que tira ovos do seu nariz) a imitar um ridículo galo.
Essa mimése do galo compõe-se de palavras que não levam a nada a não ser ao próprio levar... Na primeira vez que imita o galo, o professor é o galo da escola, o galo que cuida de seus pintinhos em classe, mas que precisa ir buscá-los fora da sala de aula, no cabaré “O anjo Azul”. Um silenciamento subjetivo no sujeito aí se instaura, quando o professor não pode dizer, falar, confessar nem para si mesmo que vai ao cabaré para outro motivo que não ser o galo em busca dos alunos fugitivos. Mas, quando se casa com Lola, ela, vestida de noiva, imita uma galinha. É o seu silenciamento diante da moral do matrimônio. Que bodas são estas senão as bodas de ovos? É como se a voz dramática por Lola Lola gritasse "Soy El Que Soy"... a mesma voz remetida pelo desenho desrespeitoso do professor apaixonado flutuando angelical, tocando uma harpa de onde saía o nome, infinitamente, Lola Lola... O personagem volta a imitar o galo quando, em total estado de desespero, vê-se transformado no palhaço do cabaré, cinco anos depois, o galo traído e abatido, o galo que cisca no terreiro alheio, o palhaço que vende os postais eróticos da esposa, tão serializados quanto o nome Lola Lola que estampava o desenho no quadro negro. A aliança que professor Rath veste está em seu pescoço, afinal. O matrimônio com o absurdo.
Homenagem ao filme "O Anjo Azul", de Josef von Sternberg, 1930 (Alemanha). No Elenco: Emil Jannings e Marlene Dietrich . Baseado no livro de Heinrich Mann. Este é um blog acadêmico.
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sábado, 31 de março de 2012
O Anjo Azul e a fuga da palavra
O professor que seguia o "anjo azul" (mediador entre a Luz e os homens), de súbito, percebe que circula na ambivalência claro/escuro, o anjo obscuro, o palhaço de Lola Lola. "Soy El Que Soy" canta o galo. Chegar a um "eu sou", como ensina Derrida, é ainda repetir um "eu sigo". Esta é a questão na cena em que o professor imita o galo e, neste imitar, já não representa mas se transforma corporalmente em um "não-ser" por meio da voz.
Neste sentido, como disse Blanchot, toda palavra precipita uma fuga, é não mais que "de fuga" e, assim, não há nunca uma correspondência entre o desejado e o resultado que obtemos pelo processo da linguagem, pois a palavra foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo... E diante desta "différance originaire", captamos apenas o anjo noturno das origens, pois o pensamento (nesse desespero de estar-se em busca) é um eterno re-voltar-se. Voltar-se novamente, em círculos, repetidamente, revoltar, o moinho do ser. Ou melhor, o anjo anuncia desta vez que "nada es verdaderamente digno de ser salvado", como diz Girri quando justamente explana, em suas Prosas, sobre a leitura do livro de Luiz Heinrich Mann (irmão de Thoman Mann), romance que inspirou o filme O Anjo Azul.
"En el momento idealmente adecuado, leí El ángel azul, las desgracias del viejo profesor Basura, enamorado de la linda Rosa Froelich. Habia allí una perspectiva que no podía desaprovechar. Un buen disfraz bastaría, pues disfrazarse es la mejor trampa contra el tiempo. Ya se sabe, cada vez que deseamos algo que el tiempo quizá nos há de dar, ese deseo no es fiel, tuerce fatalmente el objetivo propuesto. Nunca habrá correspondencia entre lo deseado y sus resultados. Reconocemos el tiempo por sus efectos exteriores y las variantes que en cada circunstancia introduce. Si somos capaces de copiar bien esos aspectos, la realidad elegida estará a nuestra disposición. Otra cosa importante, y desconsoladora, es la intuición de que nada es verdaderamente digno de ser salvado. Pocas veces saben nuestros pensamientos lo que buscan, y nunca nos sirven para ver más allá de las narices. en vez de dejarse vivir en un continuo y muy aburrido juego de causas y efectos, de edades y fisiología, de respetabilidad y taras y confusos sueños, lo más sensato es tomar, elegir una vida ya hecha, inventada o no, y repetirla con el goce inigualado de saber de antemano lo que sucederá. Contra la opinión corriente entre los que fingen predicciones y fantasías, hay que tratar de que lo imprevisto parezca natural. Para mí, entre un suceder que se está realizando, la elección no era dudosa. En cuanto al hecho de que tomara como modelo de acción futura la história de el ángel azul, y no otra, carece de importancia." (ALBERTO GIRRI)
Neste sentido, como disse Blanchot, toda palavra precipita uma fuga, é não mais que "de fuga" e, assim, não há nunca uma correspondência entre o desejado e o resultado que obtemos pelo processo da linguagem, pois a palavra foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo... E diante desta "différance originaire", captamos apenas o anjo noturno das origens, pois o pensamento (nesse desespero de estar-se em busca) é um eterno re-voltar-se. Voltar-se novamente, em círculos, repetidamente, revoltar, o moinho do ser. Ou melhor, o anjo anuncia desta vez que "nada es verdaderamente digno de ser salvado", como diz Girri quando justamente explana, em suas Prosas, sobre a leitura do livro de Luiz Heinrich Mann (irmão de Thoman Mann), romance que inspirou o filme O Anjo Azul.
"En el momento idealmente adecuado, leí El ángel azul, las desgracias del viejo profesor Basura, enamorado de la linda Rosa Froelich. Habia allí una perspectiva que no podía desaprovechar. Un buen disfraz bastaría, pues disfrazarse es la mejor trampa contra el tiempo. Ya se sabe, cada vez que deseamos algo que el tiempo quizá nos há de dar, ese deseo no es fiel, tuerce fatalmente el objetivo propuesto. Nunca habrá correspondencia entre lo deseado y sus resultados. Reconocemos el tiempo por sus efectos exteriores y las variantes que en cada circunstancia introduce. Si somos capaces de copiar bien esos aspectos, la realidad elegida estará a nuestra disposición. Otra cosa importante, y desconsoladora, es la intuición de que nada es verdaderamente digno de ser salvado. Pocas veces saben nuestros pensamientos lo que buscan, y nunca nos sirven para ver más allá de las narices. en vez de dejarse vivir en un continuo y muy aburrido juego de causas y efectos, de edades y fisiología, de respetabilidad y taras y confusos sueños, lo más sensato es tomar, elegir una vida ya hecha, inventada o no, y repetirla con el goce inigualado de saber de antemano lo que sucederá. Contra la opinión corriente entre los que fingen predicciones y fantasías, hay que tratar de que lo imprevisto parezca natural. Para mí, entre un suceder que se está realizando, la elección no era dudosa. En cuanto al hecho de que tomara como modelo de acción futura la história de el ángel azul, y no otra, carece de importancia." (ALBERTO GIRRI)
Professor Hath
O professor humilhado que, em sua roupa escura e serena, sustentava na lapela uma contrastante flor branca, e empinava sua barba branca para subestimar seus alunos (obscuro suspendendo, coabitando, o luminoso) e, depois, como um "seductor barato" (para voltar a Girri) as multiplica num ramalhete para pedir a dançarina em casamento e ser, novamente, frustrado pelas risadas da amada que banalizam o "sério".
A idéia da união, nesse filme, deixa de ser um compromisso infindo, conjugal, um pacto eterno de um rito de união entre dois, conquista de um status, e passa, por sua vez, a ser a decadência do metódico, um desejo de afetação social, de incurável alastramento, perfuração, uma "doença mortal". E, principalmente, ao mesmo tempo, o risco de uma desesperada corrida atrás daquilo que justamente essa corrida deixa para trás (no caso do filme: a austeridade, o respeito perdido do professor Rath, a Luz que o cabaré Anjo Azul lhe obscureceu). O que é a eternidade, novamente com Girri, senão conservar el ángel de los orígenes... e o professor volta (re-voltado), como um ser degradado, para a escola e senta-se na sua antiga mesa, suas mãos dormentes não se podem desprender da mesa, estão duras, é o fim do filme. Retornamos, desta maneira, por essa "desesperança" que não se detém, a Levinás, no sentido do infinito encarado como um Desejo.
Voltamos a Blanchot, pois Lola Lola representa a palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo, a "longa busca" borgeana. O professor errante traçou "um círculo onde o amor respira", afasta-se do espaço diurno dos jovens da escola para viver as escuridões do cabaré, mas não deixa de ser o "professor". Torna-se um "servente da noite", o “anjo noturno” de Lola que lhe calça gentilmente as delicadas meias, que a torna um anjo sagrado; porém é, enfim, apenas o servo do Anjo azul que imita um galo, circulando, seguindo em fuga o animal que nos olha e olhamos. Ao imitar o galo em público, o professor não apenas perde a voz, ele sofre um silenciamento na própria voz, na própria alocução. Ao mesmo tempo o corrompe a voz do animal e um estranho silêncio de seu próprio ser. Note-se que não é sua voz que é silenciada é o seu ser. Não tendo nada mais a seguir, não tendo mesmo mais uma diferença entre seu ser homem e seu ser animal, resta-lhe apenas a busca de um silêncio absoluto que vem a ser a própria morte corporal, posto que já não tem mais um ser em si, um ser a ser identificado pelo outro.
Eu finalizaria esta análise citando, convenientemente, uma passagem do livro “O animal que logo sou”, de Jaqcues Derrida:
"[...] tudo no que me preparo a dizer deveria reconduzir à questão de o que "seguir" ou "prosseguir" quer dizer, e "ser depois", e à questão do que faço quando "eu sigo", e digo "eu sou", se eu sigo esta seqüência, aí então me transporto dos "fins do homem", portanto dos confins do homem, à "passagem das fronteiras" entre o homem e o animal. Ao passar as fronteiras ou os fins do homem, chego ao animal: ao animal em si, ao animal em mim e ao animal em falta de si-mesmo, a esse homem a que Nietzsche dizia, aproximadamente, não sei mais exatamente onde, ser um animal ainda indeterminado, um animal em falta de si-mesmo. Nietzsche diz também na Genealogia da moral, no começo da segunda dissertação, que o homem é um animal prometedor, pelo que ele entende, sublinhando estas palavras, um animal que pode prometer ( das versprechen darf). A natureza ter-se-ia dado como tarefa criar, domesticar, "disciplinar" (heranzüchten) esse animal de promessas./ Há muito tempo, há tanto tempo, então desde sempre e pelo tempo que resta por vir, nós estaríamos em via de nos entregar à promessa desse animal em falta de si-mesmo./ Há muito tempo, pois./ Há muito tempo, pode-se dizer que o animal nos olha?/ Que animal? O outro./ Freqüentemente me pergunto, para ver, quem sou eu [...]" DERRIDA, Jacques (em "O animal que logo sou")
A idéia da união, nesse filme, deixa de ser um compromisso infindo, conjugal, um pacto eterno de um rito de união entre dois, conquista de um status, e passa, por sua vez, a ser a decadência do metódico, um desejo de afetação social, de incurável alastramento, perfuração, uma "doença mortal". E, principalmente, ao mesmo tempo, o risco de uma desesperada corrida atrás daquilo que justamente essa corrida deixa para trás (no caso do filme: a austeridade, o respeito perdido do professor Rath, a Luz que o cabaré Anjo Azul lhe obscureceu). O que é a eternidade, novamente com Girri, senão conservar el ángel de los orígenes... e o professor volta (re-voltado), como um ser degradado, para a escola e senta-se na sua antiga mesa, suas mãos dormentes não se podem desprender da mesa, estão duras, é o fim do filme. Retornamos, desta maneira, por essa "desesperança" que não se detém, a Levinás, no sentido do infinito encarado como um Desejo.
Voltamos a Blanchot, pois Lola Lola representa a palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo, a "longa busca" borgeana. O professor errante traçou "um círculo onde o amor respira", afasta-se do espaço diurno dos jovens da escola para viver as escuridões do cabaré, mas não deixa de ser o "professor". Torna-se um "servente da noite", o “anjo noturno” de Lola que lhe calça gentilmente as delicadas meias, que a torna um anjo sagrado; porém é, enfim, apenas o servo do Anjo azul que imita um galo, circulando, seguindo em fuga o animal que nos olha e olhamos. Ao imitar o galo em público, o professor não apenas perde a voz, ele sofre um silenciamento na própria voz, na própria alocução. Ao mesmo tempo o corrompe a voz do animal e um estranho silêncio de seu próprio ser. Note-se que não é sua voz que é silenciada é o seu ser. Não tendo nada mais a seguir, não tendo mesmo mais uma diferença entre seu ser homem e seu ser animal, resta-lhe apenas a busca de um silêncio absoluto que vem a ser a própria morte corporal, posto que já não tem mais um ser em si, um ser a ser identificado pelo outro.
Eu finalizaria esta análise citando, convenientemente, uma passagem do livro “O animal que logo sou”, de Jaqcues Derrida:
"[...] tudo no que me preparo a dizer deveria reconduzir à questão de o que "seguir" ou "prosseguir" quer dizer, e "ser depois", e à questão do que faço quando "eu sigo", e digo "eu sou", se eu sigo esta seqüência, aí então me transporto dos "fins do homem", portanto dos confins do homem, à "passagem das fronteiras" entre o homem e o animal. Ao passar as fronteiras ou os fins do homem, chego ao animal: ao animal em si, ao animal em mim e ao animal em falta de si-mesmo, a esse homem a que Nietzsche dizia, aproximadamente, não sei mais exatamente onde, ser um animal ainda indeterminado, um animal em falta de si-mesmo. Nietzsche diz também na Genealogia da moral, no começo da segunda dissertação, que o homem é um animal prometedor, pelo que ele entende, sublinhando estas palavras, um animal que pode prometer ( das versprechen darf). A natureza ter-se-ia dado como tarefa criar, domesticar, "disciplinar" (heranzüchten) esse animal de promessas./ Há muito tempo, há tanto tempo, então desde sempre e pelo tempo que resta por vir, nós estaríamos em via de nos entregar à promessa desse animal em falta de si-mesmo./ Há muito tempo, pois./ Há muito tempo, pode-se dizer que o animal nos olha?/ Que animal? O outro./ Freqüentemente me pergunto, para ver, quem sou eu [...]" DERRIDA, Jacques (em "O animal que logo sou")
O Anjo Azul e a busca poética
O filme me faz lembrar, dentre tantas poesias, a de Borges chamada La larga busca. Ela diz:
"Anterior al tiempo o fuera del tiempo (ambas locuciones son vanas) o en un lugar que no es del espacio, hay un animal invisible, y acaso diáfano, que los hombres buscamos y que nos busca.
Sabemos que no puede medirse. Sabemos que no puede contarse, porque las formas que lo suman son infinitas.
Hay quienes lo han buscado en un pájaro, que está hecho de pájaros; hay quienes lo han buscado en una palabra o en las letras de esa palabra; hay quienes lo han buscado, y lo buscan, en un libro anterior al árabe en que fue escrito, y aún a todas las cosas; hay quien lo busca en la sentencia Soy El Que Soy..."
Ser o que se é? Será isto que o professor Hatch sustenta ao mimetizar o galo, neste filme? Ele solta um ruído que não passa de fuga, silenciamento pela ressonância de sua própria voz, o que me faria pensar Blanchot:
Para Blanchot: toda palavra, então, é de fuga, precipita a fuga, ordena todas as coisas para a confusão da fuga, palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo.
O que significaria este “soy el que soy”? (Podemos ouvir “soy el que soy” naquela noite humilhante em que Professor Hath, de “O anjo Azul”, está voltando fugindo ao colégio, após as decepções amorosas com Lola e o mágico gigolô que lhe tirava ovos do nariz, que os quebrava um a um publicamente em sua cabeça de professor, de marido, de pássaro?) “Soy el que soy”, não sou isto que os outros estão dizendo, sou o que sou, (mesmo ao preço da morte, ao preço de “não ser”). Estaríamos fugindo ao longo de uma, cada vez maior, emboscada ontológica? Estar fugindo mais depressa do que se está, eis precisamente o que ainda mais alimenta a desorientação do animal, do anjo, a solidão e o silêncio da fuga, "porque las formas que lo suman son infinitas"... Aí está o que faz crescer a incerteza "Soy El Que Soy", o aparecimento do ser imaterial que, em sua vigília, está na direção de nossa fuga, qual um anjo torto atrás do ser, que nos vela a busca e busca a nossa busca, como quer Borges. Mas, também, como diria Drummond, em suas origens:
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."
Esses três primeiros versos do "Poema de sete faces", publicado no seu primeiro livro, "Alguma Poesia", em que o anjo torto, na sombra, define o ser gauche, lembram também a desesperação borgeana "Soy El Que Soy". Ou seja, são também um recurso tautológico usado pela voz que confia na origem, está sob o zelo de uma luz original, mas se coloca, igualmente, como uma sombra que se volta, uma sombra que projeta o corpo, podemos assim pensar, ao invés de ser projetada, na parede, pela luz contra o corpo.
No artigo "Borges, poeta circular", o crítico argentino Saul Yurkievich analisa as fixações obsessivas e tautologias de Borges e explica que ele "[...] comienza su actividade de escritor componiendo poemas; luego abandona temporariamente la poesía y la retoma en edad madura, para confirmarnos que la suya, al igual que toda existencia humana, está fundamentalmente hecha de repeticiones, regida por el cíclico retorno: 'Esta tautologias (y otras que callo) son mi vida entera. Naturalmente, se repiten sim precidión; hay diferencias de énfasis, de temperatura, de luz, de estado fisiológico general'. [...]" (YURKIEVICH, Saul.)
Quer dizer: um anjo obscuro, que ao mesmo tempo está na luz e na sombra mas em detrimento de uma função mediadora entre os dois pólos, e que, deste modo, faz nascer uma circularidade viciosa, uma necessidade de fuga, uma fuga que já nasce instaurada na fala de um ser gauche e, simultaneamente, faz nascê-lo. O anjo torto que define e guia o silencioso destino gauche ao longo do "mundo, vasto mundo", foi publicado por Drummond exatamente no mesmo ano em que se rodava, na Alemanha, o dramático filme, sob direção de Josef von Stenberg: Der Blaue Engel ("O anjo azul").
"Anterior al tiempo o fuera del tiempo (ambas locuciones son vanas) o en un lugar que no es del espacio, hay un animal invisible, y acaso diáfano, que los hombres buscamos y que nos busca.
Sabemos que no puede medirse. Sabemos que no puede contarse, porque las formas que lo suman son infinitas.
Hay quienes lo han buscado en un pájaro, que está hecho de pájaros; hay quienes lo han buscado en una palabra o en las letras de esa palabra; hay quienes lo han buscado, y lo buscan, en un libro anterior al árabe en que fue escrito, y aún a todas las cosas; hay quien lo busca en la sentencia Soy El Que Soy..."
Ser o que se é? Será isto que o professor Hatch sustenta ao mimetizar o galo, neste filme? Ele solta um ruído que não passa de fuga, silenciamento pela ressonância de sua própria voz, o que me faria pensar Blanchot:
Para Blanchot: toda palavra, então, é de fuga, precipita a fuga, ordena todas as coisas para a confusão da fuga, palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo.
O que significaria este “soy el que soy”? (Podemos ouvir “soy el que soy” naquela noite humilhante em que Professor Hath, de “O anjo Azul”, está voltando fugindo ao colégio, após as decepções amorosas com Lola e o mágico gigolô que lhe tirava ovos do nariz, que os quebrava um a um publicamente em sua cabeça de professor, de marido, de pássaro?) “Soy el que soy”, não sou isto que os outros estão dizendo, sou o que sou, (mesmo ao preço da morte, ao preço de “não ser”). Estaríamos fugindo ao longo de uma, cada vez maior, emboscada ontológica? Estar fugindo mais depressa do que se está, eis precisamente o que ainda mais alimenta a desorientação do animal, do anjo, a solidão e o silêncio da fuga, "porque las formas que lo suman son infinitas"... Aí está o que faz crescer a incerteza "Soy El Que Soy", o aparecimento do ser imaterial que, em sua vigília, está na direção de nossa fuga, qual um anjo torto atrás do ser, que nos vela a busca e busca a nossa busca, como quer Borges. Mas, também, como diria Drummond, em suas origens:
"Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."
Esses três primeiros versos do "Poema de sete faces", publicado no seu primeiro livro, "Alguma Poesia", em que o anjo torto, na sombra, define o ser gauche, lembram também a desesperação borgeana "Soy El Que Soy". Ou seja, são também um recurso tautológico usado pela voz que confia na origem, está sob o zelo de uma luz original, mas se coloca, igualmente, como uma sombra que se volta, uma sombra que projeta o corpo, podemos assim pensar, ao invés de ser projetada, na parede, pela luz contra o corpo.
No artigo "Borges, poeta circular", o crítico argentino Saul Yurkievich analisa as fixações obsessivas e tautologias de Borges e explica que ele "[...] comienza su actividade de escritor componiendo poemas; luego abandona temporariamente la poesía y la retoma en edad madura, para confirmarnos que la suya, al igual que toda existencia humana, está fundamentalmente hecha de repeticiones, regida por el cíclico retorno: 'Esta tautologias (y otras que callo) son mi vida entera. Naturalmente, se repiten sim precidión; hay diferencias de énfasis, de temperatura, de luz, de estado fisiológico general'. [...]" (YURKIEVICH, Saul.)
Quer dizer: um anjo obscuro, que ao mesmo tempo está na luz e na sombra mas em detrimento de uma função mediadora entre os dois pólos, e que, deste modo, faz nascer uma circularidade viciosa, uma necessidade de fuga, uma fuga que já nasce instaurada na fala de um ser gauche e, simultaneamente, faz nascê-lo. O anjo torto que define e guia o silencioso destino gauche ao longo do "mundo, vasto mundo", foi publicado por Drummond exatamente no mesmo ano em que se rodava, na Alemanha, o dramático filme, sob direção de Josef von Stenberg: Der Blaue Engel ("O anjo azul").
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