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sábado, 31 de março de 2012

O Anjo Azul e a busca poética

O filme me faz lembrar, dentre tantas poesias, a de Borges chamada La larga busca. Ela diz:



"Anterior al tiempo o fuera del tiempo (ambas locuciones son vanas) o en un lugar que no es del espacio, hay un animal invisible, y acaso diáfano, que los hombres buscamos y que nos busca.

Sabemos que no puede medirse. Sabemos que no puede contarse, porque las formas que lo suman son infinitas.

Hay quienes lo han buscado en un pájaro, que está hecho de pájaros; hay quienes lo han buscado en una palabra o en las letras de esa palabra; hay quienes lo han buscado, y lo buscan, en un libro anterior al árabe en que fue escrito, y aún a todas las cosas; hay quien lo busca en la sentencia Soy El Que Soy..."


Ser o que se é? Será isto que o professor Hatch sustenta ao mimetizar o galo, neste filme? Ele solta um ruído que não passa de fuga, silenciamento pela ressonância de sua própria voz, o que me faria pensar Blanchot:



Para Blanchot: toda palavra, então, é de fuga, precipita a fuga, ordena todas as coisas para a confusão da fuga, palavra que na verdade não fala, mas foge daquele que fala e o leva a fugir mais depressa do que está fugindo.


O que significaria este “soy el que soy”? (Podemos ouvir “soy el que soy” naquela noite humilhante em que Professor Hath, de “O anjo Azul”, está voltando fugindo ao colégio, após as decepções amorosas com Lola e o mágico gigolô que lhe tirava ovos do nariz, que os quebrava um a um publicamente em sua cabeça de professor, de marido, de pássaro?) “Soy el que soy”, não sou isto que os outros estão dizendo, sou o que sou, (mesmo ao preço da morte, ao preço de “não ser”). Estaríamos fugindo ao longo de uma, cada vez maior, emboscada ontológica? Estar fugindo mais depressa do que se está, eis precisamente o que ainda mais alimenta a desorientação do animal, do anjo, a solidão e o silêncio da fuga, "porque las formas que lo suman son infinitas"... Aí está o que faz crescer a incerteza "Soy El Que Soy", o aparecimento do ser imaterial que, em sua vigília, está na direção de nossa fuga, qual um anjo torto atrás do ser, que nos vela a busca e busca a nossa busca, como quer Borges. Mas, também, como diria Drummond, em suas origens:



"Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."



Esses três primeiros versos do "Poema de sete faces", publicado no seu primeiro livro, "Alguma Poesia", em que o anjo torto, na sombra, define o ser gauche, lembram também a desesperação borgeana "Soy El Que Soy". Ou seja, são também um recurso tautológico usado pela voz que confia na origem, está sob o zelo de uma luz original, mas se coloca, igualmente, como uma sombra que se volta, uma sombra que projeta o corpo, podemos assim pensar, ao invés de ser projetada, na parede, pela luz contra o corpo.


No artigo "Borges, poeta circular", o crítico argentino Saul Yurkievich analisa as fixações obsessivas e tautologias de Borges e explica que ele "[...] comienza su actividade de escritor componiendo poemas; luego abandona temporariamente la poesía y la retoma en edad madura, para confirmarnos que la suya, al igual que toda existencia humana, está fundamentalmente hecha de repeticiones, regida por el cíclico retorno: 'Esta tautologias (y otras que callo) son mi vida entera. Naturalmente, se repiten sim precidión; hay diferencias de énfasis, de temperatura, de luz, de estado fisiológico general'. [...]" (YURKIEVICH, Saul.)

Quer dizer: um anjo obscuro, que ao mesmo tempo está na luz e na sombra mas em detrimento de uma função mediadora entre os dois pólos, e que, deste modo, faz nascer uma circularidade viciosa, uma necessidade de fuga, uma fuga que já nasce instaurada na fala de um ser gauche e, simultaneamente, faz nascê-lo. O anjo torto que define e guia o silencioso destino gauche ao longo do "mundo, vasto mundo", foi publicado por Drummond exatamente no mesmo ano em que se rodava, na Alemanha, o dramático filme, sob direção de Josef von Stenberg: Der Blaue Engel ("O anjo azul").

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